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Propagando a luz
como expandir as frestas?
É certo que, nas últimas décadas, a luta dos movimentos LGBTQIA+ no Brasil resultou em avanços tanto legislativos quanto sociais, facilitando pelo menos um pouco a vivência dessa parte da população no país. Entretanto, é preciso lembrar que, mesmo garantidos no momento, esses direitos e conquistas estão sempre permeados por lutas de interesses, e podem ser minimizados ou até mesmo perdidos por completo. Em relação à sensação de segurança das pessoas LGBTQIA+ no Brasil, um dos retrocessos aconteceu em 2018, com a vitória nas urnas de Jair Bolsonaro para presidência do país.
Frases homofóbicas e atitudes que estimulavam a violência contra pessoas que fogem do padrão heteronormativo sempre estiveram presentes de forma explícita e direta no discurso de Bolsonaro, tanto antes quanto durante seu mandato como presidente. Essas frases fizeram, por exemplo, com que vários casais LGBTQIA+ adiantassem seus casamentos após o resultado das eleições, em novembro de 2018, com medo de que ao assumir a presidência, em janeiro de 2019, esse direito fosse revogado.
Apesar da perda desse ou de outros direitos legislativos não terem se concretizado até hoje, uma das consequências sentidas por pessoas LGBTQIA+ é que, após a eleição de Bolsonaro como presidente, pessoas que compartilham de ideias homofóbicas se sentiram mais à vontade para expressá-las publicamente, adicionando mais camadas de medo no cotidiano da comunidade.
É extremamente necessário que existam ambientes onde pessoas LGBTQIA+ possam existir e se expressar livremente, da forma que elas desejam. Mais potente ainda seria que essas frestas se ampliassem, quebrassem as paredes físicas e imaginárias e sua atmosfera de acolhimento e respeito pudesse se alastrar por toda a cidade. Mas como, efetivamente, fazer com que isso se concretize?
Na pesquisa Viver em São Paulo, realizada em 2020 pela Rede Nossa SP e o Ipec, a população apontou algumas políticas públicas que elas acreditam ser importantes para uma melhor vivência da população LGBTQIA+ em São Paulo. Em primeiro lugar, ficou a promoção de campanhas de conscientização e inclusão (37%); em segundo, aumentar as penas contra quem pratica atos discriminatórios contra a população LGBTQIA+ (35%); e em terceiro, ampliar os serviços de proteção à população LGBTQIA+ em situação de violência (29%).
Outro campo que vem à cabeça quando pensamos em possíveis soluções para construir uma cidade melhor para pessoas LGBTQIA+ é a necessidade de ter representantes da comunidade na política, lutando por um maior número de direitos e legislações voltadas para o grupo. Neste ponto, avançamos a passos curtos, mas avançamos. São Paulo é o estado do país que conta com mais deputados declarados LGBTQIA+, por exemplo. No entanto, o número ainda é pequeno: quatro de um total de 94.
As políticas públicas são, sim, imprescindíveis para que essa parte da população se sinta segura em diversos espaços. Apesar disso, muitas vezes, hábitos ainda mais simples, como ocupar o espaço público e estar disposto a dialogar com pessoas de outras bolhas, podem ser o bastante para abrir, aos poucos, o caminho ao mundo de respeito e igualdade que tanto desejamos.
A cidade é o cenário da vivência em comunidade. A partir dela, podemos criar nossas próprias narrativas e trajetórias. Seja nas ruas ou nas vielas, ficam marcados os nossos passos, nossas aspirações e modos de viver. Como uma via de mão dupla, ao transformarmos a cidade, somos capazes de nos transformar.
Vivemos em um tempo onde a ocupação física da cidade está restrita. Mas será que existe de fato um local onde há uma circulação livre entre os espaços urbanos para todas as pessoas, independente de raça, classe ou sexualidade? É possível manter a esperança de que poderemos construir uma sociedade melhor para todos? Como podemos criar, juntos, uma cidade ideal?
Para os membros da comunidade LGBTQIA+, essa resposta é mais simples do que você imagina. Ao longo do nosso projeto, perguntamos para todos os entrevistados como seria uma cidade ideal a partir da concepção deles. Entre os resultados, identificamos pontos que parecem simples, mas que são de grande importância, como é o caso da segurança em ambientes públicos, respeito às diversidades e o aumento da cultura nos espaços urbanos.
Durante a produção desta reportagem, buscamos ao máximo trazer uma pluralidade de vozes, olhares e corpos, já que além de ser um dos principais fundamentos para um bom jornalismo, acreditamos que as experiências no espaço público mudam muito dependendo do gênero, da sexualidade, da raça, da classe, entre outros marcadores sociais. Por conta da pandemia e/ou por fatores pessoais, não foi possível alcançar algumas fontes até o prazo disponível para a entrega do projeto.
Assim como as cidades, construímos esse espaço para ser vivo e em constante transformação. Caso acredite que pode agregar a essa experiência, seja com alguma sugestão ou com seu próprio relato, entre em contato com a gente!