Frestas na Cidade – Capitulo 4

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Acolhimento ao ar livre

eventos em espaços públicos fechados

Pelo direito de ocupar: Paradas e Marchas

Se no dia a dia, a cidade de São Paulo ainda é um espaço hostil à comunidade LGBTQIA+, existe uma data no ano onde a principal avenida da cidade se torna palco para a luta, a existência e o afeto dessa comunidade. Em Junho, no dia da Parada LGBTQIA+, as pessoas não só de São Paulo, nem do Brasil, mas do mundo inteiro, ocupam por horas a Avenida Paulista para viver e celebrar no espaço público, seu amor, sua sexualidade e seu pertencimento. 

A Parada teve seu início de forma extremamente espontânea, não tendo nenhuma intenção de crescimento ou de diversão (veja mais na história em quadrinhos contada por Ideraldo Beltrame). Mas a necessidade de ir às ruas e mostrar quem se é levou o evento a se tornar um dos maiores movimentos de ocupação das ruas do mundo. Segundo os organizadores da Parada SP, em 2019, a 23ª edição reuniu três milhões de pessoas, e movimentou R$403 milhões na economia da cidade. 

Parada LGBTQIA+ de São Paulo de 2014, que por conta da Copa do Mundo ocorreu em Maio | Foto: Creative Commons

Apesar de trazer uma maior representatividade e amplificar as discussões sobre gênero e sexualidade, o crescimento da Parada também trouxe questionamentos, como a perda do seu lado político e o foco no entretenimento, no turismo e no lucro proporcionado pelo evento. Hoje, são dezenas as marcas apoiadoras da parada, que abrem espaço para temas como o pink money – poder de compra da comunidade LGBTQIA+ – e como ele muitas vezes é buscado por empresas que não apoiam efetivamente uma melhoria na vida das pessoas da comunidade. 

Outra questão que surgiu ao longo da evolução da Parada foi como os homens gays tomaram, mesmo que de forma inconsciente, o protagonismo do evento. Tanto que, por muitos anos, o evento foi popularmente chamado de “Parada Gay”.

Com o objetivo de trazer o protagonismo a outros grupos – representados pelas letras da sigla da comunidade -, foram surgindo outras manifestações na semana em torno do dia do Orgulho LGBTQIA+, como a Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais – surgida em 2003 – e a Marcha do Orgulho Trans – com início em 2018. Com menor porte e apoio, as duas buscam ocupar o espaço público para chamar a atenção da sociedade aos recortes e demandas desses grupos, muitas vezes invisibilizados até mesmo dentro da própria comunidade. 

Com você ando melhor: Coletivos LGBTQIA+ e suas ações na cidade

Uma das maneiras possíveis de lutar por direitos e reivindicar transformações é por meio da formação de coletivos. Na cidade de São Paulo, são vários os grupos organizados por membros da comunidade LGBTQIA+ que, por meio de atos, intervenções artísticas e ações sociais, buscam a garantia de ocupar dignamente o espaço público da capital. 

Um dos principais – e talvez mais simbólicos – grupos que lutam pelo direito à cidade em São Paulo é o coletivo Arouchianos. Desde 2016, quando foi idealizada, a organização busca garantir a visibilidade e a ocupação LGBTQIA+ no bairro do Arouche. Uma das regiões mais importantes para a comunidade na capital, o local passa por constantes tentativas de gentrificação e apagamento da contribuição dessa parte da população. Em 2016, por exemplo, o ex-prefeito da cidade e atual governador do estado João Doria anunciou o projeto que tinha o objetivo de “afrancesar” o bairro

Ato "O Fervo do Fim do Mundo", organizado pelo coletivo A Revolta da Lâmpada em Maço de 2020 | Foto: A Revolta da Lâmpada / Reprodução

Por meio de projetos sociais, assembleias abertas e atos-eventos, o Arouchianos auxilia na resistência dos LGBTQIA+ que vivem em São Paulo – migrantes, negros, em situação de vulnerabilidade e trabalhadoras do sexo -, que constroem e dão real vida à região. Um dos principais objetivos do coletivo, inclusive, é provocar o órgão público para que haja o tombamento do Largo do Arouche como patrimônio histórico imaterial LGBTQIA+, dando o reconhecimento e a importância necessários à comunidade.  

Outra organização que promove importantes ações na busca ao direito à cidade da população LGBTQIA+ em São Paulo é o coletivo Revolta da Lâmpada. Criado em 2014, o grupo usa da arte e da ocupação do espaço público para lutar pela liberdade dos corpos marginalizados pela sociedade, levando em conta sempre a interseccionalidade. O nome do coletivo diz respeito ao episódio que aconteceu na Avenida Paulista, quando um jovem foi agredido por um grupo com uma lâmpada ao ser lido como um homem gay. Todo ano, o coletivo ocupa as ruas do centro da metrópole com o grito de guerra “fervo também é luta”, pois acreditam que a festa – o “desbunde, o escracho”, como os próprios membros definem – é uma forma de reivindicar pelos seus direitos. 

Ó abre alas que eu quero passar: Blocos LGBTQIA+ de São Paulo 

“Espaço de subversão de cidadanias negadas”. É assim que Luiz Antônio Simas define o Carnaval. A festa, que apesar de estar presente em outros países já se tornou um símbolo da representação brasileira, sempre esteve ligada à liberdade. São cinco dias onde as amarras morais que permeiam a sociedade se soltam e podemos viver na intensidade que desejamos, da forma que desejamos.

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“O corpo carnavalizado, sambado, disfarçado, revelado, suado, sapateado, sincopado, dono de si, é aquele que escapa, subindo no salto da passista, ao confinamento da existência como projeto de desencanto e mera espera da morte certa”

Luiz Antônio Simas no livro “O Corpo Encantado das Ruas”
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Mesmo em meio ao clima de liberdade de corpos conferido pelo Carnaval, a existência das pessoas da comunidade LGBTQIA+ nos conhecidos bloquinhos de rua de São Paulo ainda é marcada por medo, receio e violências, sejam elas olhares de recriminação, xingamentos preconceituosos ou agressões. Em 2020, por exemplo, um jovem de 18 anos estava de mãos dadas com seu namorado e foi espancado por um grupo de homens na saída de um bloco de rua na cidade. 

Foi pensando em ampliar a atmosfera de segurança e liberdade da festa que tem quase intrínseco em si esse objetivo, que surgiram diversos blocos voltados para o público LGBTQIA+. Um dos maiores de São Paulo é o bloco MinhoQueens. Organizado pela drag Mama Darling, ele já reuniu mais de 300 mil foliões nas ruas do centro antigo da capital. Outro grande bloco voltado para a comunidade é o Domingo Ela Não Vai, que no mesmo ano contou com a presença de mais de 150 mil pessoas. 

Bloco de carnaval "Domingo ela não vai" passando em frente ao Theatro Municipal de São Paulo | Foto: Domingo ela não vai/ reprodução

Nos últimos anos, surgiram também na capital vários blocos voltados para siglas específicas da comunidade. Um dos recortes que mais se  multiplicaram foram os destinados às mulheres lésbicas e bissexuais, como por exemplo o Siga Bem Caminhoneira e o Siriricando. O recorte racial também tem começado a aparecer. Em 2019, o artista social Alberto Pereira Jr. – idealizador do Domingo Ela Não Vai – fundou o bloco Bixa Preta Você é Linda, que busca estimular a autoestima das pessoas negras e fazer com que elas se sintam representadas também no Carnaval. 

Corpos em movimento: esportes e a população LGBTQIA+

O autor uruguaio Eduardo Galeano define bem a paixão e a euforia que o futebol causa, mas acima de tudo, a sensação de pertencimento atribuída a fazer parte de um time. O esporte transforma vidas, faz milhares de pessoas vibrarem ao mesmo tempo. Ele transcende, indo além de regras e cores de camisa.

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“O entusiasmo que se desencadeia cada vez que a bola sacode a rede pode parecer mistério ou loucura, mas é preciso levar em conta que o milagre é raro. O gol, mesmo que seja um golzinho, é sempre gooooooooool na garganta dos locutores de rádio, um dó de peito capaz de deixar Caruso mudo para sempre, e a multidão delira e o estádio se esquece que é de cimento, se solta da terra e vai para o espaço.”

Eduardo Galeano, no livro Futebol ao Sol e à Sombra (1995)
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Praticantes da Gaymada se alongando | Foto: Hudson Francley / Arquivo Pessoal

Esse pertencimento reverbera ainda mais forte para a população LGBTQIA+, que luta todos os dias contra a solidão que é estar em um ambiente onde se sentir o único faz parte da rotina. Além disso, há o medo constante de estar suscetível à rejeição e violências, como se nunca tivessem um tempo para respirar, correr, gritar – até encontrarem o esporte.

Em São Paulo, grupos como Meninos Bons de Bola (primeiro time de futebol para homens trans do Brasil), a Gaymada (de queimada LGBTQIA+) e o JogaMiga (de futebol para mulheres) fazem o papel de levar o esporte para vida de pessoas consideradas minorias, oferecendo experiências compartilhadas e acolhimento.

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