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Embaixo do nosso teto
eventos em espaços públicos fechados
A ocupação da cidade pelas pessoas LGBTQIA+ foi, por muito tempo, concentrada majoritariamente em festas e bares da noite. Isso porque “os sentimentos de culpa e pecado que oprimem o homossexual são constantemente repostos por fatores sociais que o levam a se ocultar”, como ressalta Edward MacRae, no texto “Em Defesa do Gueto” (1983).
O artigo de MacRae faz um panorama da cena LGBTQIA+ das três décadas anteriores àquela em que o texto foi escrito, quando casais homossexuais estavam começando a demonstrar afeto publicamente e os primeiros eventos destinados à comunidade apareciam aos poucos na região da Rua Augusta. O autor define o gueto como o lugar onde tais pressões são momentaneamente afastadas e que permite, portanto, que a pessoa tenha mais condições de se assumir e de testar uma nova identidade social. Uma vez construída a nova identidade, ela adquire coragem para assumi-la em âmbitos menos restritos.
Dessa forma, as baladas comandadas por pessoas LGBTQIA+ foram um dos primeiros locais de descontração, nos quais a comunidade se sentiu confortável para ocupar. NostroMondo, Madame Satã, Massivo, Trash 80’s. Foram inúmeras as casas noturnas abertas principalmente a partir da década de 70 em São Paulo e que se tornaram verdadeiros sinônimos não só de lazer, mas de acolhimento para essa parte da população. A história da noite gay da cidade durante os anos 70 e 80 é contada com mais profundidade no documentário “São Paulo Em Hi-Fi“, de 2013.
Na década de 90, os eventos com foco na comunidade LGBTQIA+ despertam em novos espaços, que agora não só existem na sombra das madrugadas, mas também resistem nas brechas do dia. Um destes espaços é o Festival Mix, festival de cinema voltado para a diversidade criado em 1993, e que em 2021 chega a sua 29ª edição.
“No começo tinha uma excitação de uma coisa que existia pela primeira vez, das pessoas se encontrando fora do gueto, fora da boate. Elas podiam se reunir num ambiente cultural, numa ação de cinema”
André Fischer, criador do Festival Mix
Estar em um lugar onde você e sua forma de amar são respeitados é muito potente. No entanto, é preciso lembrar que outras opressões, como o racismo e o machismo, ainda se fazem presentes dentro de espaços destinados à pessoas LGBTQIA+. Com o objetivo de criar lugares ainda mais acolhedores, nos últimos anos, foram surgindo festas com recortes específicos. Um dos eventos que ganhou grande visibilidade é a Batekoo. Criada em Salvador e depois se expandindo para outras cidades do país, a festa busca ser um ambiente de existência de pessoas LGBTQIA+, negras e periféricas.
Só entra mina: festas exclusivas para mulheres
Não são raras situações em que mulheres, dentro de ambientes destinados à comunidade, são assediadas, se sentem hiperssexualizadas ou oprimidas pela figura masculina. Além disso, não existe uma forma de comprovar que os homens que estão presentes nesses eventos não são heterossexuais que apenas desejam se aproveitar daquele espaço de forma invasiva. Todos esses fatores acabam fazendo com que o medo e o receio exista nas mulheres mesmo em locais que deveriam ser sinônimo de liberdade e segurança.
Pensando nessas questões, na última década, surgiram as festas exclusivas para mulheres que amam mulheres. Uma das primeiras a adotar essa proposta em São Paulo foi a Sarrada No Brejo. O evento, organizado pela Coletiva Luisa Barbosa, possui foco em mulheres negras, gordas e periféricas, e conta ainda com uma creche para que mães possam deixar seus filhos e curtir a balada. Outra festa conhecida na cidade é a Fancha, organizada pela fotógrafa e produtora Isabela Catão e que chegou a São Paulo há quase três anos.
E a categoria é: Ballroom no Brasil
O Movimento Ballroom surgiu por volta da década de 60 nos guetos de Nova York, nos Estados Unidos, entre negros, latinos, periféricos e LGBTQIA+ – principalmente mulheres transsexuais. Como grande parte dos eventos apresentados nesta reportagem, a cena surge da necessidade de uma comunidade de ter um lugar onde é possível existir em sua máxima potência, sem medo e sem vergonha.
De forma bem resumida, são dois os eixos que estruturam essa cultura: as houses e as balls. As houses são casas, que surgem da necessidade de acolhimento, de formar uma família, já que muitas pessoas LGBTQIA+ são expulsas de suas casas quando se assumem. As houses são governadas por figuras chamadas mothers e fathers (mães e pais), que adotam esses jovens que estão precisando de um lar para viver.
“A Ballroom não se trata só de performance, mas sim de vidas. Além de existir uma questão de resistência ao momento que vivemos, é um espaço de acolhimento para pessoas que ainda sofrem muito preconceito e marginalização na nossa sociedade”
Henrique Cintra, pesquisador e estudioso da Ballroom
Já as balls são os eventos promovidos pela comunidade. Com trajes preparados especialmente para a ocasião, os membros competem em diversas categorias, que mexem com conceitos como gênero, sexualidade e performatividade. Em algumas categorias, também aparece o vogue, parte importante da cultura. Nesta dança, criada nos bailes, os praticantes andam como se estivessem em uma passarela e imitam poses das modelos de revistas. Os vencedores das categorias recebem troféus e títulos que fazem com que elas se tornem figuras de prestígio dentro da Ballroom.
Os passos mais famosos da Ballroom fazem parte do voguing, que envolve movimentos corporais para imitar poses, caras e bocas feitas pelas modelos nas capas de revistas. Muitas vezes, quando falamos a respeito da dança, há a associação quase imediata ao vídeo da música “Vogue”, lançado por Madonna nos anos 1990. Apesar da representação feita pela cantora, é importante lembrar que a canção apenas retrata um aspecto de um movimento cultural extenso que foi resultado da luta de pessoas LGBTQIA+ negras e latinas nos Estados Unidos. A artista, inclusive, é muito criticada até hoje por membros da comunidade por ter se apropriado das mobilizações sociais feitas por eles para lucrar.
Com essas produções midiáticas e a internet, a Ballroom chegou a outros países, como no Brasil. Hoje, só no estado de São Paulo, são mais de 20 kikihouses, nome dado para as casas que figuram entre as principais da Ballroom mundial. Existem algumas mudanças entre a Ballroom praticada aqui e a originária dos Estados Unidos. Uma delas, por exemplo, é o menor papel das casas e o maior papel do vogue. Além disso, cada vez mais, a cena tem adotado características da cultura brasileira, usando elementos de gêneros musicais como o funk e o samba.