Frestas na Cidade – Capitulo 2

pngs_Prancheta 1 cópia 4

2

pngs_Prancheta 1 cópia 4

Resistir e existir

entre a cidade e as frestas

Resistir: as dores de ser LGBTQIA+ em São Paulo

São Paulo é a cidade símbolo do Brasil quando o assunto é diversidade. Ser lar da maior Parada LGBTQIA+ do mundo pode dar a impressão de que o acolhimento e a segurança presentes no evento fazem parte do dia a dia da população. Entretanto, os dados e experiências de moradores mostram uma realidade diferente. Mesmo que São Paulo seja vista por muitas pessoas como uma das cidades “mais tolerantes” para ser LGBTQIA+ no Brasil, os dados sobre o assunto ainda assustam.

É importante reforçar também que a violência ganha diferentes contornos de acordo com os marcadores sociais envolvidos em cada contexto. Se você é um homem branco, gay e com alto nível de passabilidade – isto é, reproduz as normas heteronormativas presentes na sociedade – é bem provável que as violências sofridas por você sejam menores do que as vivenciadas por uma mulher negra e trans, por exemplo. Além disso, as opressões não ocorrem da mesma forma nas periferias e no centro da cidade.

Existir: de fresta em fresta a gente ilumina a cidade

Alarmantes, os números e os relatos de violências sofridas por pessoas da comunidade LGBTQIA+ reforçam a importância de espaços seguros para essa parcela da população. Sejam festas, blocos de carnaval, times esportivos ou festivais, os eventos funcionam como espaço de acolhimento e de respiro. São verdadeiras frestas que garantem e possibilitam a expressão de forma livre, sem impedir que cada um ali presente transpareça quem de fato é, da forma que deseja ser. Afinal, resistir é importante, mas cansa. 

Em O Corpo Encantado das Ruas, o historiador Luiz Antônio Simas reflete que as culturas de frestas são definidas como aquelas que driblam o padrão normativo e canônico, ensinando respostas inusitadas para sobreviver no meio que normalmente não as acolheria.

pngs_Prancheta 1 cópia 4

 “As festas reúnem aqueles que, sobrevivendo, ousaram inventar a vida na fresta, dando o nó no rabo da cascavel e produzindo cultura onde só deveria existir o esforço braçal e a morte silenciosa”

 
Luiz Antônio Simas, no livro “O corpo encantado das ruas”
pngs_Prancheta 1 cópia 4
Pessoa jogando queimada no Largo do Arouche, local onde ocorrem várias atividades esportivas voltadas para o público LGBTQIA+ | Foto: Hudson Francley / Arquivo Pessoal

Mostrar-se presente em uma cidade tão paradoxal quanto São Paulo é importante para uma vivência livre, sem abertura para contestações por meio de cláusulas e acordos. A criação destas frestas reforça a necessidade de pessoas da comunidade frequentarem locais onde elas possam apenas existir. Os espaços de convivência vêm para apresentar aos cidadãos da maior metrópole do Brasil que, por mais que haja a repressão às existências LGBTQIA+, elas ainda estão presentes, vivas e pulsando, resistindo e existindo por toda a extensão da capital. 

Combater essas hostilidades por meio da ocupação do espaço público e privado acaba por deixar de ser apenas uma forma de resistência. Parafraseando Simas, “é reexistir mesmo; reinventar afeições dentro ou fora das arenas e encontrar novas frestas para arrepiar a vida de originalidades, encantarias e gritos – amados, suados, deseducados, gentis, épicos, miúdos, cheirando a mijo e flores delirantes”.

Copy of Sem título-3-11

escreva pra nós!