5
Pandemia
se não posso ir à rua, onde vou ser?
Uma semana após celebrarmos a vida no carnaval, em março de 2020, a cidade de São Paulo parou. A sensação de imprevisibilidade trazida pelo coronavírus veio tão forte quanto um soco no estômago. Do dia pra noite, bares ficaram vazios, eventos foram cancelados, o afeto por meio do toque se tornou um risco e os sorrisos se esconderam por baixo das máscaras.
Para a comunidade LGBTQIA+, a experiência pandêmica foi ainda mais complexa. A falta de amparo financeiro por parte do governo federal durante o período fez com que os membros voltassem a morar em ambientes familiares marcados pela repressão da sexualidade. O caminho inverso também ocorreu: jovens que se assumiram foram despejados de casa por famílias que não apoiavam suas respectivas identidades sexuais.
De acordo com um levantamento realizado pelo coletivo #VoteLGBT com a Box1824 em junho de 2021, durante a pandemia, houve um aumento de 16% na vulnerabilidade de pessoas LGBTQIA+. Cerca de 55,2% dos entrevistados pela pesquisa relataram piora na saúde mental ao longo do isolamento social, principalmente pela falta de acesso aos espaços de apoio e ao atendimento profissional. A insegurança também é financeira: 6 em cada 10 membros passaram por diminuição ou ficaram sem renda durante a pandemia.
E como suportar tudo isso com a ausência do afeto presencial? A internet, que sempre abrigou debates e trocas sobre sexualidades e identidades de gênero, também se estabeleceu como uma opção para fortalecer e criar novos laços e formas de apoio nos tempos de isolamento social. “A gente tá se conectando muito hoje por causa da pandemia. Se não estivéssemos nessa situação, você só estaria vendo as pessoas ao seu redor e isso é um bloquinho fechado”, conta Diego Cazul, father da House of Cazul.
Além de proporcionar a força necessária para lidar com o dia a dia, os ambientes virtuais ainda trouxeram a esperança de comemorar tempos melhores em espaços reais, como festas, eventos e grupos de apoio. A expectativa fica ainda maior com a existência de lives e eventos virtuais, que tem o objetivo de agrupar a comunidade para momentos de descontração e desabafo.
Para o artista social Alberto Pereira Jr., essa troca pela internet é importante para que a ocupação da cidade por LGBTQIA+s ocorra no pós-pandemia. “Em 2005, montei um blog, comecei a escrever sobre cultura e comecei a trocar muito com os blogueiros gays da cidade de São Paulo, e aí fui conhecendo mais a cidade, fui indo para a balada, fui ampliando meu olhar”, relata.
A internet funciona, sem dúvidas, como um refúgio para a população LGBTQIA+. Os grupos online possibilitam o encontro de pessoas com trajetórias semelhantes, cujos caminhos talvez não se traçassem nas ruas da cidade.
O acesso à informação de qualidade e as redes de apoio construídas em diferentes espaços online, elementos próprios da internet, são essenciais para fortalecer o movimento LGBTQIA+. “As pessoas viram nas redes sociais e nas comunidades na internet espaços para elas serem quem são, pra falar das suas experiências, ter apoio, fazer amigos. Tem um lado muito positivo que ainda existe bastante.” comenta Guilherme Alves, coordenador da SaferNet Brasil.
“É importante ter pessoas que criam conteúdos LGBTQIA+ para que outras pessoas da comunidade vejam uma pessoa com a qual possam se espelhar, uma pessoa com a qual podem ter um referencial de sucesso, um repensar de felicidade”
Guilherme Alves, coordenador da SaferNet Brasil
A SaferNet é uma ONG que reúne profissionais com a missão de defender e promover os direitos humanos na Internet. O ambiente digital, apesar do seu lado positivo, também repercute os discursos e crimes de ódio que vivemos fora da internet. Por conta dessa ambivalência, o cuidado ao marcar encontros ou até mesmo compartilhar informações quando não se vive em um ambiente seguro é primordial.
Nos 15 anos de atuação, a SaferNet Brasil recebeu e processou mais de 145 mil denúncias anônimas de LGBTFobia envolvendo aproximadamente 33 mil páginas distintas, das quais em torno de 25 mil foram removidas. Em 2020, houve mais de 5 mil denúncias anônimas de LGBTFobia em quase 3 mil páginas distintas. Destas, 1.050 foram removidas.
A Parada LGBTQIA+ online de 2021 teve comentários moderados pela SaferNet, que reduziu a zero as mensagens com ameaças ou menções à morte, diferentemente da edição de 2020. No primeiro semestre de 2021, houve um aumento de 106,3% nas denúncias de conteúdo LGBTfóbico na internet, comparado ao mesmo período do ano anterior.
Desde 2019, a LGBTfobia é criminalizada, mas sua identificação é difícil por envolver controle de discurso, como relata Guilherme. “Tem um caminho longo entre a lei e a execução dessa lei. Existe muita dificuldade para que as pessoas denunciem LGBTfobia dentro e fora da internet, e possam ver que isso teve algum resultado”. Por isso, a SaferNet Brasil oferece um serviço para denúncias anônimas, contando com procedimentos efetivos e transparentes.